sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação XIII


Não desejo repetir a experiência, pelo menos não tão cedo. Sentir-me-ei mais protegido se partir para longe destas imagens e desta multidão. Tentei perceber esta estranha pertença mas continuo sem conseguir entender a verdadeira dimensão do segredo. A seguir aos sorrisos dos antepassados surgem os arrepios, as dores e uma dificuldade em processar correctamente as informações que os sentidos vão comunicando ao meu cérebro aturdido. Tudo acontece à frente dos nossos olhos, respeitamos o que nos é dito e comunicado, crescemos com os segredos que se deram a entender. Foi com brusquidão gelada que as memórias resgatadas da infância descansaram o meu corpo. Sinto-me agora mais completo. Não temo as conversas, não temo as ligações a este passado que tanto me inquietava e me alimenta, não temo as consequências e as dores das noites mal dormidas, dos desesperados momentos de todos aqueles que me acompanharam nas visitas a estas memórias, não temo o futuro pois este passado aquece a minha vida. Seguro a mão de Constança ainda trémulo. Seguro as passadas na descida destes passeios tão familiares. Vejo o sorriso de tantos turistas transformarem-se no rosto dos antepassados que se despedem de mim uma última vez. O tempo passa muito lentamente e a curta viagem de regresso ao carro parece durar uma pequena eternidade. Descansamos a derreter um doce gelato à sombra do muro da cidade antiga com imenso prazer. As nossas mãos continuam unidas enquanto agarramos este instante para todo o sempre. Lançamos um último olhar para estas paisagens, para estas paredes familiares, para este inseguro local do meu passado. Descansaremos as emoções com o jantar que nos aguarda no belo restaurante do hotel Napolitano.

- Mudei muito. Revivi de novo, com uma dificuldade que não esperava, os mesmos desígnios da minha infância. Faltava esta etapa para conseguir derreter a sensação estranha que escondi dentro de mim desde esse longínquo dia em que por aqui passeei. É impressionante. Foi difícil encontrar o momento, o instante certo para me reencontrar com este passado, com esse meio sonho, meio realidade.

Constança olha para mim ao mesmo tempo que saboreia o delicioso gelato de nocciola e fragola, ri-se com os seus olhos imensos e cristalinos que imediatamente me ajudaram a entender que tudo valeu a pena, tudo, e sinto-me bem melhor agora que o seu sorriso me iluminou a revigorada esperança.

- Conseguimos ganhar bem mais nesta viagem do que aquilo que poderíamos alguma vez imaginar. Como acabámos de ver, mudar de vida é possível se tivermos a coragem de nos reconciliarmos com o passado e os italianos são verdadeiros peritos nessas matérias. E a prova, se necessário fosse, encontra-se aqui na minha mão. Povo que consegue fazer gelados assim tão eternamente perfumados e perfeitos, consegue tudo.

As palavras de Constança tiveram o sortilégio de voltar a desenhar por segundos um sorriso de menino no meu rosto. Aquele primeiro encontro que aqui tive há décadas deixou neste exacto momento de me atormentar.

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domingo, 28 de novembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação XII


- Fomos enviados com ordens precisas do senhor Ministro para transportar vossas senhorias. Façam o favor de subir e desfrutar da curta viagem que vos aguarda até Oeiras.

O guarda era imponente e a sua voz, apesar de polida e serviçal, continha um travo militar suficientemente rude e austero ao qual obedecemos sem revelar qualquer estranheza. Fernanda trocou comigo um olhar cúmplice e a sua mão, mais uma vez vestida com a impecável luva de linho, pede-me auxílio. Ajudo-a a chegar mais facilmente ao pequeno degrau que permite o acesso à sege amarela de quatro rodas que nos transportará até à presença do Ministro Sebastião. Pela pequena janela da portada despedimo-nos em silêncio da nossa aliada. A sua mão bordada deixa cair a cortina e ficamos os dois a admirar a diferença deste silêncio. O cocheiro dá sinal e o chicote estala fazendo saltar para a frente a viatura. Sem dificuldade ganha velocidade avançando paralela ao rio e muito perto do lugar onde o oceano recebe o Tejo de braços abertos nesta memorável manhã. Fernanda gere os silêncios com notável mestria. Os seus olhos guardam os segredos desta noite. Olha-me com um sorriso cúmplice ao mesmo tempo que com a mão esquerda despe a direita e me semeia um afago na face. Ao longo dos minutos, não horas, que a viagem durou, entretivemos a existência com beijos quentes, apaixonados, deixando mais uma vez que o tempo se derretesse no curto espaço da viagem.

- Não digas uma única palavra Bernardo, não me obrigues a contar-te o que está para acontecer. Aproveitemos este milagre pois a única certeza que temos é a doçura dos nossos beijos, é este aqui e agora, é o sermos príncipes deste nada, é voltar a amar-te assim perdidamente. Os sinais são por demais evidentes, encontram-se por toda a parte e em parte alguma. A separação é um momento, um instante e não a desejo por nada deste Mundo mas os meus desejos apagaram-se, desapareceram com o meu suposto dom.

Voamos outra vez na perdição de um abraço, deixamos que os receios se derretam no calor de nossos beijos, no calor desta paixão resgatada ao passado, resgatada aos nossos sonhos e alimentada pela maior de todas as tragédias.

- Não temos grande escolha Bernardo. O Ministro irá dar-nos a conhecer os seus propósitos. Tem tirado o máximo partido das dificuldades sentidas por todos após a catástrofe, transformando esse triste presente através das suas organizadas visões, valorizando-se e valorizando o seu próprio futuro excepcionalmente. Se não colocasses as minhas visões atormentadas no papel pela força da tua pena, não estaríamos agora aqui, mesmo que tais palavras sirvam os estranhos interesses do Ministro e este se sinta tentado a ir mais além do que aquilo que é humanamente projectável. A doença da vaidade vem montada na cegueira do poder absoluto. Juntos, são o mais forte e traiçoeiro de todos os venenos.

As suas mãos estão frias, ficaram assim após estas palavras.

- Que se passa? A palidez e as mãos subitamente tão geladas não são sinais animadores. O teu olhar parece também querer acompanhar a súbita neblina que cobriu sem aviso o sol desta manhã.

Apertou com mais força as minhas mãos nas suas.

- É a sensação de voltar a ter receio do que nos possa acontecer. Apesar da vitória obtida ao conseguir deixar de antecipar todos os momentos, o passado mais recente instaurou de tal forma esse gosto, essa segurança negra e nefasta, que o corpo acabou por reagir. Não é razão para preocupação. As decisões deverão estar a ser todas tomadas neste exacto momento.

Não consigo entender que decisões serão essas. O rosa volta a colorir a sua bela figura parecendo aumentar o tamanho dos seus olhos amendoados. O cabelo audaz fala por ela, reage em função de cada pequeno movimento, a cada sinal de fragilidade revolta-se, celebra essa rebeldia como a coroa viva da sua princesa. Fernanda é belíssima, justa, misteriosa e apaixonada, elegante, livre, angelical e madura, frágil e tão natural como as estranhas mensagens que lhe saem sem licença dando conta de um estranho futuro. Deslumbra tamanha intensidade, tamanha vontade em encontrar respostas para todas as dúvidas que a perturbam.

- Não procures encontrar um sentido para as coisas a partir de hoje. Acredita apenas que tudo o que nos acontece tem um estranho desígnio agarrado a esta luz.

Acalma novamente os meus lábios com os seus, alcança outra vez este coração viajando por ele como antes ninguém conseguiu. Continuadamente provocamos o tempo da viagem e apesar de muito curto, conquistou-me para sempre pelas emoções que acaba de me causar. Dou por mim a desejar que nunca mais acabe.

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sábado, 27 de novembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação XI


Sei como funcionam estas coisas. As sirenes ouvem-se ao longe, um gato listrado passa apressado num silêncio felino. Posso ainda tentar salvá-la, devo ligar imediatamente a meu pai e responder-lhe à mensagem de terça-feira passada. Constança não responde. As pessoas continuam a correr apressadas tentando apanhar os restos de esperança que já ninguém sabe onde se esconderam. Não responde, não me responde desde o dia da sua mensagem. Vivem-se breves instantes de acalmia e tudo de novo se agita. Oscilamos para todos os lados. Várias são as explosões que sem tréguas removem dos lugares de descanso as construções dos homens, algumas com séculos de resistência e que agora finalmente tombam derrotadas. Assistimos à destruição dos diversos cenários da cidade, incêndios às centenas vão consumindo os prédios e impedindo qualquer tentativa de fuga às pessoas encurraladas. Os desastres sucedem-se, as ruas e avenidas estão cheias com as multidões que por elas tentam avançar procurando auxílio e salvação. Estive adormecido por uns instantes. Atravesso a rua saltando pelos vários carros abandonados que ninguém se preocupa em conduzir. Nalguns deles ainda se ouvem gemidos e gritos. Foram muitos os que ficaram encurralados dentro das chapas retorcidas. O trânsito é tão caótico a esta hora da manhã que a tragédia parece ter propositadamente escolhido a pior hora do dia para se manifestar. As viaturas queimadas são agora bombas relógios que se encontram aleatoriamente espalhadas por toda a cidade. O terramoto de Lisboa acordou do seu sono, veio novamente visitar os seus habitantes e causar uma devastação inimaginável. O número de vítimas que hoje se contarão pelas artérias da capital será seguramente superior a meio milhão de almas. Todos estes sobreviventes receiam as consequências terríveis do mais que provável maremoto que nos irá arrasar dentro de alguns minutos, tal como nesse distante primeiro de Novembro de 1755. Ninguém sabe o que fazer. O caos instalou-se de tal forma que é indescritível o que por aqui se está a passar. É impossível explicar todas as cambiantes do pesadelo. Para onde quer que eu olhe a destruição e a morte pintam a história deste dia. Repito vezes e vezes sem conta as tentativas de ligação sempre com o mesmo resultado. O telemóvel acabou mesmo por ficar num silêncio total. Ninguém fala com ninguém, as palavras como as conhecíamos deixaram de se fazer entender. O tempo devia de ser desligado neste exacto momento, devia ser transmutado para um qualquer segundo do dia de ontem para que todos pudessem ter tido a oportunidade de abandonar esta cidade destruída. O céu é agora negro e vermelho. Onde antes reinava um sol esplendoroso, vestiu-se um céu escuro e carregado com as cores da cinza. Podíamos ter chegado a este futuro mas num diferente lugar, num outro qualquer lugar onde a destruição pudesse ter sido evitada, onde todos pudéssemos ter mostrado a língua à morte com orgulho infantil.

Ligo a luz e volto de novo a limpar a testa suada. Constança dorme profundamente e nem deu conta do meu desassossego. As peças não se encaixam, perdem-se algures entre os enviados misteriosos do passado e este alucinante e monstruoso retrato do futuro.

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação X


As palavras de Fernanda obrigaram-me a dar-lhes um caminho. Resgatá-las do perpétuo esquecimento passou a ser a tarefa deste zeloso soldado. Antes de mais tive de dar ordens para me fazerem chegar todas as necessárias ferramentas de trabalho. Continuo adepto deste instrumento da escrita, estas penas de ganso que tratadas de maneira tão especial deslizam nas folhas como nenhum outro. A decisão está tomada e as descrições de espantosos locais continuam a sair ritmadas e sem travão, continuam a espantar pelo pormenor, pela dimensão e por tudo o que de tão fantástico vai dando conta.

( livro de Bernardo )

A navegação é feita sem paralelo ao que hoje conhecemos. Enormes espaços flutuantes do tamanho de cidades dão abrigo em torres e mais torres iluminadas a milhares de pessoas que neles navegam, que neles habitam. Os seus senhores são desconhecidos, e muitas são as estranhas músicas que se escutam ao redor das gigantescas construções. Não entendo como podem ser tão ordeiros, como conseguem saber ao certo o que fazer, para onde avançar, a que propósito e a que vontades obedecer. Os diferentes sons misturam-se ululantes, inebriantes, e todos estes seres aparentam obedecer cegamente às melodias que os guiam como se fossem apenas pequenos desenhos rabiscados de forma rápida no horizonte. De quando em fez fazem-se ouvir palmas. Sem nenhum sentido saem das nuvens escuras como chuva para os abraçar, para os acarinhar, principalmente àqueles que parecem marchar mais abandonados e sem direcção. As palmas transformam-se em mais música, repetitiva, desordenada, descompassada. Uma amálgama de instrumentos a dar vida a um conjunto bizarro de sons desconexos e desorganizados que afectam a vida de todos os habitantes desses galeões gigantescos, dessas montanhas de vida que se mantêm estranhamente à tona de água. Sobem de ritmo e de intensidade, cada vez mais desorientados e desorganizados, repetitivos, agudos. Começam a incomodar de tal maneira todos os seres vivos que por ali se cruzam que estes começam a desesperar, levando as mãos aos ouvidos, tapando-os e colocando-se de joelhos e de olhos fechados à espera que o monstro ensurdecedor que cresceu no céu possa finalmente desaparecer. Nada disso acontece. A montanha acelera o seu compasso, o ruído é cada vez mais intenso, mais agudo e mais repetitivo, tornando-se agora verdadeiramente insuportável. Alguns começam a sangrar dos ouvidos e os gritos de dor são completamente abafados pela ruidosa montanha. Caem derrotados pelo chão, espalhados, uns por sobre os outros, como frágeis castelos de cartas levados pelo vento. São milhares os corpos que se contorcem de dor nestas caravelas ruidosas a quem o destino cobriu de ruído desejando acabar com a vida de todos. As ordens que estavam acostumados a seguir e que lhes eram transmitidas através da música suave que se escutava por toda a parte, foi assim violenta e cruelmente arruinada.

Navego sozinha no meio dos corpos dos habitantes. A água por onde me faço transportar é a carne e os ossos dos habitantes massacrados destas ilhas. Neste terramoto formado no estranho futuro, um único sobrevivente vai-me acenando com os braços. Assim que me viu, ergueu-se, e avança a correr com incrível agilidade. É alto, traja uma indumentária muito diferente daquela a que estamos acostumados. O seu corpo parece estar desnudado mas as mãos, a cabeça e os pés saem perfeitos na sua tonalidade rosada pelas mangas, colarinho e junto aos tornozelos onde o azul acaba. Todo o restante corpo está vestido com um apertado e fino traje azul-escuro. A cabeça totalmente desprovida de cabelo tem à volta da testa uma tira com letras estranhas e uma barra pintada num vermelho vivo e cativante. Salta por cima dos muitos corpos que ficaram deitados após a tragédia, salta como se precisasse de provar nesses seus pulos que está vivo e que o consegue fazer. Mantenho-me quieta e em silêncio à sua espera, mantenho uma calma e uma tranquilidade que não seria normal numa situação destas, mas que estranhamente me invadiu. O atleta nunca mais chega. Quanto mais corre, quanto mais salta e quanto mais rápidos são os seus movimentos, mais pequeno e mais afastado de mim parece ficar. Estou assustada com o seu possível desaparecimento. A calma abandonou-me por este motivo. Corro na sua direcção, corro para tentar fazer-me chegar até si, para provar que estou viva e que o consigo fazer. Salto como ele por cima dos habitantes caídos deste imenso lago de corpos, corro para me dar a conhecer a este estranho que ainda agora corria na minha direcção. O que me teria para dizer? O que tenho eu para lhe contar? Tropeço mais de uma dezena de vezes antes de o conseguir alcançar. Reparei que parou de correr e de saltar assim que me viu arriscar esta corrida. Uma nuvem triangular transformou-se em cavalo branco e desceu dos céus para junto de nós. O atleta deu-me a mão, colocou-me na garupa do cavalo e também ele o montou de seguida. Apertei-me contra ele com todas as forças que me restavam e cavalgámos horas perdidas pela trágica paisagem atapetada com os milhares de corpos que cobriam o chão até ao local onde todos os horizontes visíveis se encontram.

Quero que me leve para bem longe pois as minhas pernas já não são suficientemente rápidas para me transportar. Um ponto branco mantém-se forte no centro da minha visão e a cabeça lateja e dói-me ligeiramente. Ao voltar de vez desta viagem e refeita da surpresa, reparo com toda a atenção para as feições do cavaleiro. Olhos muito verdes e intensos, na cabeça cresceram misteriosamente uns cabelos longos muito sujos e pintados com as tonalidades cinzentas da destruição. Os olhos continuam a olhar para dentro da minha alma, como se já me tivesse visto anteriormente. Terá também ele tido a mesma estranhíssima visão premonitória? Terei eu aparecido na sua realidade? A mais recente memória guardada do seu rosto no meu pesadelo é igual, exactamente igual ao rosto que fita novamente o meu como se soubesse exactamente tudo aquilo que nos irá acontecer.


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Não consigo evitar um arrepio. As palavras de Fernanda são assustadoramente familiares, são como as que me surgiram ao transportá-la para lá do Rossio após o calamitoso acontecimento cavalgando o bravo Felício. Parecem retiradas da minha alma e essa pensava eu fechada a alheia intromissão.


segunda-feira, 8 de novembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação IX


Se pudéssemos vislumbrar uma outra sociedade? Estas ondas que arrastaram a cidade para o desalento, para um desalento que não podia ser imaginado, que não era desejado deste lado das coisas, deveriam ter-nos engolido a todos. Padeceríamos agora de uma doença bem menos bolorenta. As provocações e os excessos transformaram-se neste castigo, um castigo que se aguardava brutal, tão brutal como improvável. Somos os joguetes destes Libertadores, destes falsos que se sucedem uns atrás de outros para atacar e corroer, para fazer crescer injustiças, para transformar o inexplicável em doença e perversão, alterando os grandes momentos com as suas palavras douradas, amadurecidas no meio do veneno que lhes tolda o espírito, que lhes tolda as mentes perversas e mesquinhas. Desejei aceitar juízos diferentes destes nossos.

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Os ventos passaram a ser mais favoráveis. Os olhares começam a ser diferentes. O povo carrega as mesmas dúvidas de ontem com humilde descrição, mas são já diferentes as causas das suas incertezas. Deixei acontecer o inevitável. Escolhi os corações de Fernanda e de Mestre Bernardo para deles expulsar as nuvens mais sombrias. As suas visões estão demasiado próximas de tudo aquilo que eu próprio vinha antecipando, do que motivou estes últimos meses de utopia. Esta era uma teoria que ameaçava desaparecer de vez no meio dos sonhos onde tinha sido arquitectada. As personagens que os habitavam não tinham rostos claramente definidos. Esse problema deixou de existir quando Mestre Bernardo fez crescer nos seus cadernos as misturas que Fernanda lhe ia descrevendo ainda adormecida na cama do hospital. A primeira sensação foi de surpresa. Ficou apagada por completo depois de me terem feito relato da situação. À estranheza dos objectos e cenários que a senhora ia descrevendo, Mestre Bernardo ia acrescentando as cores perfumadas das suas palavras rendilhadas valorizando as soluções dessa requintada parceria. Agora pertencem um ao outro, novamente, como sempre, sem terem dado conta. Mais uma vez unidos, mais uma vez reunidos para avançarem em conjunto em busca daquilo que de nós se espera. Os anos passam, são condimentados com estes temperos apimentados que nos devolvem a chama da vida, que nos devolvem à razão com inesperada comoção.

- Guardas, ide até à entrada do bosque onde ontem deixámos os nossos “convidados”. Chegou a hora de os resgatar. Não necessitarão de se embrenhar na floresta. Eles irão ter convosco. Levai aconchegos, mantas e alguma fruta e tragam-nos de novo até aqui. Não desejo ter de repetir o mesmo mais que uma vez. Despachem-se, tratem de cumprir as ordens que vos acabámos de transmitir.

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Se pudéssemos vislumbrar uma outra sociedade, uma sociedade em que os irmãos não fossem inimigos, não se tratassem como um incómodo viscoso e inútil, estas paredes não estariam carregadas com estas palavras avivadas a sangue, o sangue que escorre pelo chão, pelo chão que arde fervente com as desgraças que as palavras lhe relatam. Neste momento já me abandonou a vontade de morrer, a vontade de morrer não é mais a mesma, não é mais a mesma que fazia pender esta minha força para o lado menos visível da certeza. A minha estratégia passa por derrotar estes falsos Libertadores até que o sol não mais lhes projecte as silhuetas pelas calçadas destruídas desta nossa cidade, deste nosso Mundo. As vítimas derrotadas, essas nada dizem pois as forças foram-lhes retiradas. Perderam tudo neste sistema por eles arquitectado, por eles redesenhado vezes e vezes sem conta. Repovoaram esta rede para depois a rasgarem, para depois voltarem a manter todos os que até ela se deslocaram na malha apertada das suas tentações.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação VIII



Dar sentido ao que ainda resta. Temos de ser capazes de nos lembrar, temos de ser capazes de interpretar e também de nos esquecer de tantas coisas, para podermos viver.

- Sabes que nada é impossível, apenas porque os outros nos dizem que não é possível. Isso não chega, não é suficiente. Tudo o que disseste não foi mais do que a razão, a tua razão. É ela que te dá força e mantém o equilíbrio. Tens a noção de que pertences a estas casas, a este espaço que o Vesúvio destruiu. Algo muito forte em ti te acrescentou memórias, frases, companhias e receios desses dias longínquos e perturbados pela hecatombe provocada pela montanha. É uma viagem que não parece ter terminado, que se perpetua nestes dias, ao longo de toda a tua existência, que passou para mim desde que senti a tua aflição, desde que essa sensação te começou a inquietar e te tem trazido em sobressalto. Precisavas deste dia aqui comigo. Precisavas de saber se aquele Bernardo inocente não teria imaginado tudo aquilo que já sabias. Talvez tivesse sido arrebatado pela dimensão e pela história de Pompeia. Talvez gostasse de criar aventuras por gosto, por uma qualquer necessidade inexplicável à qual ia dando resposta. Agora tens a certeza de que o jovem que foste tinha mesmo visto, escutado e sentido o peso esmagador deste passado.

Não é apenas deste passado que as memórias me trazem paladares, odores ou conexões. São agora mais as vezes em que as palavras de outrora se revelam do que as certezas de que, no futuro, tudo acabará por se compor, por se unificar. Este é o receio que eu não desejava. Esta tortuosa impressão de que os caminhos nos podem ser adversos.

- Devo pura e simplesmente aceitar esta evidência? É isso que tens para me dizer? Vá lá Constança. Isto não é muito normal. Temo que me possa acontecer alguma coisa de ruim. Começo a acreditar que a minha cabeça me anda a pregar partidas a mais.

Não era bem isto que eu desejava dizer. O meu receio vai para lá desta certeza, desta confirmação. Os rapazes continuam a olhar para nós, do lado de lá da rua, atentos à conversa, como estátuas a aguardar o que possa vir a acontecer. Os corpos estão da cor da cinza, os cabelos são da cor da poeira, daquela que chovia antecipando a desgraça maior que se abateu sobre a cidade. Os olhos negros continuam fixos nas nossas palavras e nos nossos gestos, numa incómoda expectativa. Um deles volta a olhar o céu, roda a cabeça em várias direcções esperando que um qualquer aviso surja repentino e lhes forneça a pista desejada. Volta a olhar para mim. Segreda qualquer coisa aos outros que se viram na sua direcção, atentos. Aponta para o céu, aponta para uma pequena nuvem que lá em cima teima em não desaparecer, que teima em ser a única a calar o dia azul de hoje. Inconscientemente levanto a minha cabeça na direcção da nuvem, acompanhando o sinal feito com o braço pelo rapaz cinzento. A nuvem tinha a forma do vulcão, um imenso triângulo branco colado na abóbada celeste.

- Olha Constança, já viste ali? Repara como é curiosa a forma daquela nuvem lá no alto. Repara como é parecida com o Vesúvio lá atrás.

Mais uma curiosidade ou haverá nela um qualquer sinal que o rapaz me deseja transmitir. Mas, para onde foram eles? Já não os vejo! Desapareceram assim que os larguei de vista por breves instantes, pelos instantes em que me detive a observar a nuvem.

- É tão engraçada! Vou fotografá-la! Que me lembre, nunca reparei em nuvens que tivessem uma forma assim tão definida, uma tão clara associação ao formato do vulcão. É apenas uma coincidência mas não deixa de ser insólito.

Olho e volto a olhar à procura dos rapazes enquanto Constança vai tirando fotografias à nuvem triangular. Nada! Desapareceram tão misteriosamente como tinham aparecido. Avanço na direcção de um cruzamento que existe entre duas ruas mais largas. Tento dar conta dos meus companheiros de viagem, quero voltar a olhar para os seus rostos familiares, quero despedir-me de vez dos meus amigos. Não os vejo. Apenas turistas, muitos turistas e muito calor, um calor que foi aumentando ao longo da manhã e que agora começa a causar algum incómodo. Está na hora de ir, de procurar um restaurante para refrescarmos as ideias e acalmar o estômago e as emoções fortes deste dia.

- Bernardo! Bernardo, mas afinal de contas para onde é que tu foste?

Constança gesticula com o braço esquerdo levantado enquanto segura a máquina fotográfica na outra mão. Chama por mim com o rosto tão alegre e tão jovem como sempre. O meu amor por si é tanto que não me vai deixar cair no absurdo. Sem que ela os sinta tem consigo, à sua volta, todos os habitantes de Pompeia, todos, sem excepção. Os meus queridos amigos colocaram-se ligeiramente à sua frente. Acenam-me um adeus sentido de sorriso nos lábios, os mesmos lábios cinzentos que me acordaram para me arrastar numa louca e desenfreada corrida para fugir do nosso destino cruel.

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

QUARTO ACTO - continuação VII


Descubro com sincera alegria que as pequenas coisas passaram a ter outra importância. Rafaela entrou definitivamente na minha vida. O afecto é doce e os medos foram aplacados. Deixei que desta vez me acompanhasse de volta a Lisboa. A cidade tenta recuperar, as obras são tantas, os estaleiros montados um pouco por todo o lado acrescentam um frémito ímpar à cidade para quem chega vindo do Tejo. A vida no hospital sofreu alterações profundas devido à catástrofe. Só agora se conseguiu restabelecer uma aparente normalidade no que ao trabalho diário diz respeito. O rei continua ausente e tem sido o seu Ministro Sebastião que, com invulgar firmeza e clareza de ideias, tem feito avançar a reconstrução da cidade. Os arquitectos reais por si escolhidos conseguiram dar resposta tão rápida às suas ideias que as línguas mais insensatas dizem possuir poderes inexplicáveis. O certo é que a cidade é palco para largas dezenas de pólos de construção. São inúmeras as caravanas que ainda retiram as marcas da cidade destruída. Outras, aqui e além colocam largura e fornecem geometria nas ruelas que por lá se erguiam. Acrescenta-se a esta imagem as imensas empreitadas que se vão praticando na reconstrução de algumas fachadas menos danificadas e que, por ordens superiores, são para manter. A cidade está transformada num imenso formigueiro desordenado. Só daqui a alguns anos se entenderá a sua nova fisionomia, mas já se compreendeu que a cidade crescerá muito diferente do que era antes desse primeiro dia de Novembro do ano passado. Rafaela tem permanecido silenciosa grande parte da viagem. Desde que saímos de Santarém percebi nela a pouca vontade que tinha em voltar para Lisboa. Os dias por lá são diferentes. Aqui tudo é mais agitado, mais povoado com as imagens ainda frescas da loucura. Carregaremos tudo isso em nós até que os dias da última viagem fiquem mais perto. A luz que invade o grande Tejo antes de atingirmos o cais é única, quase indescritível. A esta hora da tardinha, fosse eu Lefebvre o real retratista do reino, era aqui, neste lugar, que pintaria a paisagem que serviria de cenário à minha próxima obra. As margens do rio são mágicas e conseguiram iluminar com um sorriso o rosto antes tristonho de Rafaela.

- Então, mais animada? A viagem cansou-te? São as recordações que fazem com que, mesmo que não queiramos, fiquemos abatidos. Não tem sido fácil ser um sobrevivente daquele dia pavoroso.

Lefebvre não faz a mínima ideia do que me vai na alma. Durante grande parte da viagem, ao olhar o rio, imaginei como seria bom transformar-me num dos seus habitantes. Passear no fundo do seu leito, desaparecer para bem longe desta desorientada cidade. Mergulhávamos os dois nas águas temperadas do Tejo, os corpos seriam impelidos pela corrente até à foz e desaparecíamos finalmente no meio do imenso Oceano para não mais voltar.

- Não sei que diga. O desgosto colou-se a mim sem razão aparente. Tenho estado a olhar o rio, as suas águas. De quando em vez vejo os peixes a passear por ele acima. Parecem bem mais felizes lá dentro do que nós aqui em cima.

Pinta esta frase com um sorriso. Olha para mim e responde deste jeito bucólico, carregada de uma vontade incontrolável em me abraçar à qual evitou dar seguimento. Aproxima-se e junto ao meu ouvido esquerdo confessa:

- Tenho saudades dos dias em Santarém, das tardes e das noites, principalmente das noites. Tenho uma saudade que me faz saltar o peito, que me faz saltar as lágrimas dos olhos porque tenho medo que não queiras mais passear o teu carinho por mim ao chegarmos mais uma vez a esta cidade maldita.

Rafaela debruça-se para voltar a observar o fundo do rio, debruça-se para o lado de lá, para a margem oposta à da cidade, para dar a entender como a odeia e ao mesmo tempo como lhe está agradecida.

- Nada do que dizes faz sentido. Não é verdade. Hoje mesmo faço questão em que fiques comigo, em que não te atrevas a dormir sozinha e deixar-me sem companhia neste regresso. Estamos os dois igualmente assustados. Agora que sabemos ser o mundo inteiro feito de papel, receamos que a qualquer instante um sopro divino mais incandescente volte a atiçar as chamas da perdição ao redor das estradas que pisamos. Não podemos estar sempre a pensar dessa maneira.

O seu corpo não se mexe. Rafaela permanece a olhar o Tejo e a margem do lado de lá do rio.

- Ouviste o que te disse? Porque não me respondes?

Sempre a repousar a sua vista no lado de lá, avança sem pressas a sua mão direita para a minha onde parou. Está gelada como um seixo acabado de retirar do próprio Tejo.

- Em Santarém fui feliz como nunca julguei ser. Em Santarém fomos um para o outro. Em Santarém a minha vida transformou-se para sempre e desejei não mais de lá sair. O meu receio é que o teu coração possa voltar a ficar da mesma temperatura da minha mão.

Só consigo pensar em Mestre Bernardo e nas suas palavras. As palavras que avisaram do monstruoso que estava para acontecer naquele dia. A coragem que teve para vencer os receios de que pudesse ser considerado um demente. A vontade que tenho em ser novamente o tigre em que me transformei na manhã desse mesmo dia.

- Se me escutares, se me escutares verdadeiramente sabes que isso já não é possível. Viajámos até um lugar que só nós dois conhecemos. Partilhámos uma história da qual já não nos podemos separar. Estou a ficar cansado, preciso de um lugar onde recomeçar e de alguém em quem possa confiar.

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domingo, 24 de outubro de 2010

QUARTO ACTO - continuação VI


Aqui senti o tempo transformar-se. Um equilíbrio quebrou finalmente o desalinho. Fernanda escondia a resposta. Era nela que estavam gravadas as palavras que serenaram a minha dor. Jamais conseguiria ser quem fui se não me entregasse nos seus braços, se não passeasse no seu colo, se não adormecesse embrulhado nas suas pernas e se não me deixasse afundar na doce maré dos seus cabelos. As minhas sombras tombaram como um castelo em ruínas. Bastou o sopro imaculado deste vento doce para derrubar as paredes que continuavam de pé. Tudo passou a fazer sentido. As inesquecíveis e atormentadas memórias recentes ficaram subitamente enterradas neste delicado corpo de mulher-menina que para sempre as engoliu.

- É fresca a candura que transmites, fresca como este espaço onde nos abrigámos. Devolveste-me em segredo e em silêncio imagens que estavam tão escondidas, tão ocultas da minha lembrança como os espaços que percorri enquanto menino.

As palavras foram derretidas, transformadas em sensações, em trocas quentes e sensuais entre dois seres que desde há muito se conhecem. Esta ligação, este segredo sublime volta a aparecer quando já não o pensava possível. Até ontem a minha vida foi escrita com um propósito, numa ténue linha imaterial e insípida. O rugido do nosso reencontro perpetuou-se pelas paredes deste abrigo. Apaixonados assim só uma única vez para todo o sempre. O corpo e a palavra desaparecem, transformam-se em sal e em suor, transformam-se em graça numa dádiva singular que não escolhe idade nem alteza. Voltámos a ser quem fomos, voltámos a recordar o ponto zero da existência. O Mundo inteiro foi revirado do interior para o exterior, desaparece o avesso e o direito das coisas. Nada existe e tudo, só agora, passa a ser real. O meu corpo está colado ao de Fernanda.

- O teu corpo é o meu, o meu o teu. As minhas dores e alegrias soam iguais às tuas. Deixei de estar sozinho, deixámos de estar sozinhos. Para sobrevivermos temos de aprender a fazer tudo de novo.

A vida inteira acontece nestes instantes. Temos de saber escutar o que tem para nos dizer, temos de acreditar na sua força única pois é nela que reside a esperança e é através dela que nos será comunicada toda a verdade.

- Já te conhecia Fernanda, sempre te conheci, os avisos eram constantes, depois fraquejaram, depois tornaram-se novamente fortes e ritmados até quase se deixarem de escutar naquele dia. Deixei de me preocupar, deixei que o teu rosto me fosse sendo comunicado nos sonhos, ao longo das viagens que nunca me trouxeram até ti, ao longo desta vida que me foi salvando sempre que me anunciava estar para breve a tua vinda. Claro que não acreditei. Nunca fui pessoa para acreditar no poder bizarro das palavras surdas, dos sonhos cinzentos, das contínuas formas de realçar o absurdo e muito menos neste Amor eterno que me aparecia e desaparecia vezes e vezes sem conta, empacotado em misteriosas luzes azuis no meio de tantos sonhos nublados.

O dia vai aparecendo devagar nas paredes junto à entrada do refúgio. Não sentimos o frio nem a humidade que vem de todas as suas entranhas. As mais escuras foram evitadas. Mantivemo-nos nesta perpétua ligação num espaço onde apenas os nossos dois corpos se conseguiam movimentar. Fernanda volta-se, abraça-me mais uma vez com os olhos brilhantes e a alma perfumada, percebe naquele carinho a importância que este momento tem nas nossas vidas. Beija-me ao mesmo tempo que os seus dedos passeiam pelo meu rosto. Observa com ternura as marcas que o tempo semeou por mim, as mesmas marcas que me diz conhecer desde que se lembra de existir. Deita a cabeça de lado sobre o meu peito e escuta este seu coração.

- Não morreste aqui Bernardo. Não foi aqui que a morte te veio encontrar. Aqui renascemos, aqui nos voltamos a descobrir uma vez mais. Tu sabes que os caminhos desta vida são obrigatoriamente diferentes das outras, das que vivemos e das que ainda faltam ser por nós vividas. Sempre que isto nos acontece, ficamos com este estranho sabor na boca, para além de acordarmos com ela tão seca como um pedaço de papel velho e ressequido. O teu coração está forte. Bate tão forte e tão intenso como batia quando nos encontrámos pela primeira vez. E nem dessa vez ficámos com a sensação de ter sido verdadeiramente a primeira.

O rosto de Fernanda volta a subir até os seus olhos voltarem a comunicar com os meus. No meio deste desalinho, a vida começa a fazer, finalmente, um pouco de sentido. A sua mão delicada toca-me na boca, manda-me calar com a ternura do gesto. Passado, presente e futuro são totalmente quebrados. Repetidamente, vezes e vezes sem conta os vencemos através desta paixão. Os olhos fecham-se e os nossos corpos alinham-se, voltam-se a unir, voltam uma vez mais a ser um só e a sentir que o tempo não existe.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010

QUARTO ACTO - continuação V


As sombras distraem as ideias. Durante a noite sentem-se melhor os abalos que parecem não querer desaparecer. Mantém todos em constante sobressalto pois está ainda bem presente a mágoa e a imensa destruição causada no primeiro dia de Novembro do ano passado. O quadro de mestre Hieronimus falou com grande eloquência. As palavras de Fernanda relataram com toda a clareza e inusitada exactidão a expressividade das imagens representadas pelo grande mestre. Esse propósito esteve guardado em grande segredo nas vontades de todos nós, tão bem escondido como a própria pintura de Bosch. A sessão que antecipava a força global da imensa destruição estava já prevista. Faltava apenas a chave para conseguir decifrar nos seus actores o dia e a hora da imensa tragédia. Ao conjugarmos essas vontades, ao fazer com que essas intenções amaldiçoadas dessem execução a uma reforma que de outra maneira jamais seria alcançada, traçámos um caminho e um destino comum que não podemos despeitar. Não tenho a mais pequena dúvida. Nada acontece por acaso, tudo acontece por acaso! Ser-me-ia difícil conseguir dormir com esta maravilhosa conjugação de acontecimentos que se vão desenrolando à nossa frente. Fernanda necessita do abrigo escondido do pequeno bosque para com Mestre Bernardo resolver de vez todas as questões. As que desorientam e desorganizam uma alma quando lhes é vedado o mantimento devido, assim como para as outras, as mais profundas, as que carecem de uma bem mais delicada ponderação. Ao longo do que resta deste ano, teremos de conjugar os nossos esforços. Mestre Bernardo terá de terminar a sua escritura acrescentando-lhe no final a lembrança desta doce noite passada com Fernanda no coração da floresta. Não mais se poderá esquecer deste momento pois é hoje que se transformará, finalmente, no homem que necessito para os tempos que estão para chegar. Fernanda passará por uma nova fase com a maternidade que lhe está reservada. Dará fruto esta paixão eterna das duas almas peregrinas. As datas de todos os acontecimentos permanecem ocultas nas entrelinhas das estrelas. Nós, os Libertadores, continuamos a tarefa rotineira e pragmática de cortar a direito, de avançar pelo centro das avalanches ou das mais altas ondas dos mares, encharcados de justiça e sem nada temer. Grande parte do segredo reside na firmeza com que esta missão será realizada. O Mundo não deixará de avançar assinalando um a um, com regularidade e método, os bravos e valorosos Libertadores. Que façamos sempre parte activa dessas Suas empreitadas.


São mais as lutas que as mortes, mais as lutas que as mortes que irão provocar. Os homens jamais conseguirão alcançar o propósito dos deuses, jamais! Não sairão vencedores, sairão sempre derrotados, sempre derrotados pela própria arma com que julgam aplacar a ira do adversário, do adversário que não merece a sorte que lhe está reservada, nem ele nem o suposto vencedor da querela. A espada que mata ou que fere é a mesma que se vira contra o cozinheiro, contra o cozinheiro que se julga Libertador. É falso como um Judas desesperado, como um desesperado. Não sei lutar mas as minhas palavras escritas a sangue, as mesmas que vão distrair a fuga para o esquecimento, para o esquecimento para onde resvala a minha dor, a minha dor e a minha alma de Libertador atraiçoado, atraiçoado por este beco sem saída, para este beco que pinto com as cores das palavras angustiadas, as minhas palavras que me saem mexidas como nenhuma outra do centro das ideias, das ideias que não estão bem, que nem pensam, que castigam o adversário, que o matam, que matam os impostores para depois me atirarem de volta a este poço onde espero, onde aguardo, onde apanho os pedaços de morte que está próxima, que sinto tão próxima como estes pequeninos pedaços de loucura que me vão alimentando a existência.

- Tapem os narizes que o cheiro nauseabundo dos Libertadores veio para não mais nos largar! Tapem bem a boca e os narizes pois o fétido odor que vos irá envenenar as entranhas será o mesmo que vos alterará os sentidos ao ponto de jamais poderem acreditar no que vos é mostrado. Salvem-se enquanto ainda é tempo! Sejam rápidos a fugir daqui para fora, sejam rápidos, velozes como os pássaros do Fim, como os pássaros negros do Senhor de todos os invernos, de todos os invernos que ainda farão parte da vossa triste e inútil existência. Inúteis, sois um imenso bando de inúteis! Os Libertadores alimentar-se-ão dos vossos cadáveres, alimentar-se-ão das vossas últimas esperanças para vos castigarem e vos presentearem com a Loucura. O meu irmão não brinca em serviço, o meu irmão julga que a selva por onde se insinua é inexpugnável mas já conheço a sua força e a sua forma de jogar desde que a magia das suas palavras deixou de fazer qualquer sentido. Sebastião não é mais que um triste e desonrado Libertador, triste e desonrado como mais nenhum outro. Sebastião caminha a passos largos para um destino que grita de satisfação. Está finalmente encontrado o serviçal infernal, o Libertador mais poderoso e mais enganador, mais enganador. Banqueteia-se com o poder que julga dominar mas que apenas o monopoliza e algema. Tapem a boca e os narizes pois o veneno deste pérfido perfume acabará com todos vós antes mesmo do final da madrugada.

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domingo, 17 de outubro de 2010

QUARTO ACTO - continuação IV

As selvas do espírito são por si só suficientemente complicadas para que não necessitemos de as atiçar ainda mais. A manhã está deliciosa. O meu amor deve estar apenas ligeiramente perturbado por ter voltado a esta cidade encantada depois de tantos anos desde a última vez. Sei o que sonhei na madrugada deste dia. Cada dia mais que passa eu cedo a esta ideia de que nada do que nos acontece é simples fruto do acaso. Apenas um beijo de amor saído da mais pura e cristalina das histórias faria com que esta realidade se pudesse transformar de novo na minha cabeça, para que tudo voltasse a ser como era na infância. Os despertadores tocam, a cidade e a baía acordam ao mesmo tempo. Nápoles acolhe-nos sem nunca nos fazer sentir estranhos, nem tão pouco visitantes. Todos os que trocam palavras connosco fazem-no como se nos conhecessem desde sempre. Alguns é como se apenas ontem nos tivéssemos despedido e hoje retomássemos com naturalidade as conversas da véspera. Uma pancadinha de amizade nas costas, braços abertos, mãos na cintura, sábias palavras de amizade colocadas com aquele timbre característico do “dialetto napolitano”, e o feitiço está lançado. E as vidas passadas surgem nas histórias que nos desejam contar, nos conselhos e na vontade com que nos apoiam em direcção ao futuro, e tudo isto não é mais do que o simples fruto da nossa imaginação atiçado pela magia do lugar e do momento. E o sapo falou, como na história do príncipe que necessitava do beijo salvador para o transformar de novo em gente. A crueldade esperou, expectante. Contou com a imensa paciência do amigo tempo, um aliado fiel e sempre pronto para se colocar do seu lado. Ao abrigo da escuridão da noite daquele longínquo ano de setenta e nove depois de Cristo, o Vesúvio cantou a mais quente de todas as melodias. Primeiro cuspiu pelos céus toneladas de pedras e de cinzas que foram caindo por cima da cidade e por todas as zonas ao seu redor. Depois ceifou instantaneamente a vida dos restantes habitantes de Pompeia com uma intensa onda de calor saída do fundo das suas entranhas. Foram todos mortos num raio de cerca de vinte quilómetros. Terão até as próprias almas sido fervidas e destruídas com as altíssimas temperaturas que emanaram do vulcão. As que lhe conseguiram resistir ficaram por aqui perdidas nessa memória alucinada, nesse louco momento que aqui aconteceu há mais de dezanove séculos atrás. São almas que andam perdidas e desalentadas há quase dois milénios. Bernardo sentiu a sua força quando por aqui passeou com os seus pais ainda bem jovem. A sua linda cabecinha deve ter imaginado essas coisas estranhas, essas sombras do passado, esses iluminados pesadelos que permaneceram para todo o sempre marcados com vigor nas pedras destas calçadas, destes passeios e destas ruas, destas casas com assinaturas tão perfeitas e tão belas como triste é a história que está por detrás da sua fama. A vida é bela, como é belo o nosso amor e como todos os amores deveriam ser. Não podemos simplesmente fazer desaparecer os nossos momentos mais sombrios, assim como as nossas memórias mais aterradoras. Para dar luta à mais sombria das nossas sombras, para tentar derrotar o nosso mais desalinhado pesadelo, todos necessitamos de ajuda. Eu tudo farei para que Bernardo possa encontrar de novo o pôr-do-sol para além desta sua tempestade.

Atirei-me de cabeça para o interior desta lembrança sem querer saber das implicações que este meu acto pudesse causar em Constança. A nona de Beethoven a saltar dentro de mim, a mesma que Kubrick usou para temperar a sua laranja. Não trazia comigo qualquer intenção de falar ou sequer debruçar-me sobre o meu passado e todavia aqui me fiz deslocar para chocar com ele com violência. Os misteriosos sinais por mim guardados, essas conversas misteriosas com os antigos habitantes de Pompeia, tinham mesmo acontecido. Não foram fruto de uma qualquer imaginação prodigiosa de um pequeno e assustado rapazinho. Perante a nobreza, o peso da história, a localização e a intensa repercussão que as figuras petrificadas me causaram, poderia ter visto e, sobretudo, imaginado estas vozes e ter criado diálogos para melhor teatralizar e contextualizar esse forte impacto. Constança olha para mim como se também ela soubesse que a confissão que lhe acabei de fazer é sentida e verdadeira. Foi importante descarregar parte deste peso que me atormentava a existência. Cheguei a imaginar-me louco, desvairado e necessito muito da sua companhia e do seu amor para me tranquilizar. Estou seguro que com o seu apoio poderemos tentar decifrar e até mesmo retirar algum sentido, um qualquer significado que seja desta experiência em Pompeia. O Mundo está transfigurado desde que estes rapazes olham na minha direcção, todos com a mesma vontade. Temos de nos retirar rapidamente deste lugar, temos de correr em direcção ao lado oposto da montanha que domina a paisagem, não temos um segundo só que seja para sentir o frio que este medo enorme nos provoca. Pior que sentir esse gelo colado à alma, é a quase certeza que, por muito que os nossos actos nos obriguem a agir desta forma, o resultado desta corrida está inevitavelmente condenado a um triste fracasso. Os primeiros passos que damos apressados uns atrás dos outros são desencontrados, meio desalinhados. A determinada altura da corrida deixámos de ter noção do tempo gasto na demanda. Quando já nos encontrávamos bem unidos num pelotão coeso e ritmado, lembro-me que olhámos nos olhos uns dos outros num breve instante com a dimensão da eternidade. Sorrimos em conjunto como parceiros inseparáveis. Sem dizer uma única palavra ficámos para sempre assim unidos, perpetuados pelo manto espesso de cinzas vulcânicas que nos serviu o céu sem piedade.

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sábado, 18 de setembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação III


-Anda, entra! Vem até aqui. Senta-te perto de mim. Preciso que me dês a tua mão. Promete que vais dar a devida atenção ao que te vou dizer. Talvez me possas começar a entender de uma vez por todas. Enquanto permaneci estes instantes aqui sozinha e em silêncio, vi a casa de todos e de ninguém. As memórias de tanta dor, de tantos sofrimentos, ficaram-me coladas na alma com tamanha intensidade, que brotaram em mim as mais nefastas tenções de vingança. Não saberei ao certo quem seria se essa espada de flagelo que me marcou o crescimento não estivesse carregada com tanto veneno. Cresci com a insuportável escuridão da noite que me era servida encastrada em medo, carregada de bafos e tormentos. Senti cedo demais tudo aquilo que não devia. Comecei a conceber as noites como os dias, iluminados e imensos, insubstituíveis na sua luminosidade. As noites não deviam acontecer e com o seu desaparecimento, tudo o que de mal delas era vomitado para cima do meu corpo deixaria finalmente de acontecer. Mas as noites continuaram escuras, sombrias, dolorosamente cruéis. Era criança demais para conseguir transformar esse querer em realidade. Todos os dias, a cada momento que passava, pedia aos anjos do céu que me escutassem, que pudessem chegar em meu auxílio e acabassem para sempre com os sons, os cheiros e as torturas que vinham embrulhadas no mais fino dos pavores no fim de cada entardecer. Anos a fio as noites passaram-se assim. A colecção de pecados e de ruína tomou de vez conta do meu espírito em mais um triste momento de solidão. Até que naquele sagrado instante as preces foram minhas aliadas pela primeira vez. Foi aquele, como podia ter sido um qualquer outro. O que me tinha sido dado a provar foi o mais doce veneno do pecado. Com as forças difundidas pela minha quase loucura, tanto foi o medo e a agonia que em segredo engoli, que gastei o meu último pingo de humanidade. Nada fazia sentido, a morte e a vingança eram tudo o que fazia sentido. A realidade começava a vestir-se com as roupas que eu escolhia. Usava apenas os trajes que pudessem povoar castigos e impiedade. Foram muitas as vidas que alimentaram a minha sede de vingança. E de vingança em vingança, comecei a colorir com as tintas mais escuras tudo o que apanhava pela frente. As minhas feridas começaram a sarar. Escolhi este difícil caminho como um presente do demónio. Cega, surda e muda, vivi outros tantos anos a descarregar esse ódio e essa sede de vingança fazendo uso deste misterioso dote divinatório. Não consegui viver, tal não era possível pois só imaginava actos de pura loucura. A todos aqueles que fomentaram dor e crueldades comparáveis àquelas que sofri, pintei-lhes no rosto as cores amarguradas do meu próprio sangue. E só com a destruição de uma cidade inteira, uma capital de um império, finalmente comecei a sentir alívio para tanta dor. E também nesse dia voltei a ver o teu rosto. Voltei a dar com esse teu rosto inesquecível, o mesmo que me aparecia quando a mais escura das noites mais escuras me convidava do lado de fora da janela do pequeno sótão para eu saltar. E o sorriso, a luz, a cor de esperança que via carregada nos teus olhos deram-me sempre forças para respirar. Acabaste por vir ter comigo. As dificuldades iniciais nesta fuga serviram apenas de pretexto para fazer com que o senhor ministro pudesse cumprir o seu papel. Ele sabe tão bem quanto nós as roupas que vestimos e os méritos que carregamos. Bernardo, sabes bem o que eu sinto por ti e eu bem sei tudo aquilo que tu sentes por mim. Se assim não fosse o teu olhar não teria caminhado na minha direcção e nada disto que nos está a acontecer poderia ter sequer acontecido.

Fernanda está belíssima. As suas palavras marcaram-me perigosamente o coração. Vou beijar-lhe os lábios, abraçar-lhe o corpo quente, sentir o suave perfume da sua pele macia e provar de uma vez por todas o delicado sabor desta paixão.

- Bernardo, vem até mim, sejamos um e um só. Vamos acalmar a ira do tempo maldito que nos suga a vida toda num instante.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

QUARTO ACTO - continuação II


Ramiro testemunhou o nascimento de algo medonho e sufoca. Desgastado, perde toda a réstia de esperança que ainda lhe sobrava para resistir. As criações passaram tão ao lado da minha vida que nada mais importa, nada mais tem verdadeiro interesse. O amor assim não pode ter existência pois são muitas as mordaças e as apertadas ataduras que o comprimem até à exaustão. Foram consumados todos os gostos de mudança. Foram utilizadas as cruéis ferramentas da vingança com sábia habilidade, e os homens e mulheres com carácter acabaram assassinados sem que ninguém tivesse suspeitado desses actos. E o que fizeram os Libertadores? Afinal, que gestos nobres nos recordaram esses senhores? Nenhum! Nada fizeram! Os Libertadores não vieram em nosso auxílio? Alguém os ajudou para que pudessem vir em nosso auxílio e fazer justiça? Ninguém, nada, nada, nem ninguém, e nenhuma investigação a estes crimes será alguma vez abalizada. O juiz supremo virou os olhos para o lado, tapou a face com as mãos com que tudo criou, jogou um jogo triste e sem regras para que todos saíssem derrotados do julgamento. Mas a memória dos mais prezados Libertadores ficará para sempre defendida pelos cavaleiros que enfrentam as mais lastimosas ofensas. Serão eles os profetas, os guardiões vingadores deste acto cobarde que foi urdido contra a nossa cidade, contra o país e contra o Mundo. A condenação perpetrada por esse juiz não foi um acto inocente, não foi um acto inocente, não foi… Os corpos dos miseráveis, dos malditos, dos despedaçados, dos infames, das mulheres ofendidas e violadas, das crianças desmembradas, dos cegos, dos desfigurados, dos que perderam tudo e todos nesse dia que se julgava Santo, voltarão da terra dos mortos, acompanhados dos Libertadores e dos seus exércitos para fazerem justiça. Precisam depois que os perdoem, precisam depois desse perdão, desse indulto como forma de esperança. Ninguém pode imaginar em que dia e a que hora esse regresso será permitido. Nem mesmo eu, Ramiro Melo, consigo adiantar essa data. As testemunhas serão acompanhadas pelos Libertadores que mencionarão o sofrimento de todas as vítimas, de todas… de todas sem excepção. Multiplicarão esses relatos mil vezes e durarão mais de mil dias, muito mais de mil até que todas as histórias possam ser comunicadas. Eu lá estarei para confirmar o fim destes tormentos, nesse raro e longínquo dia em que os Libertadores vão finalmente entender como é deliciosa e consistente a realidade.

- Água, tragam-me água. Ao menos umas gotas de água para acalmar tamanha agitação. Os braços não se acalmam, não se acalmam! A dor avança por todo o corpo, faz uma sopa estranha na minha cabeça que salta como um simples adereço, um simples e inútil adereço. Água, tragam-me água antes que mais um naufrágio de sangue me fragmente a alma e me faça novamente desejar o indesejável. Rápido… sente-se já o fedor das sombras negras dos Libertadores, dos mais mentirosos e falsos Libertadores. Troco todas as minhas preces por um simples trago de água para que possam desaparecer para sempre das paredes manchadas do meu cárcere.