domingo, 20 de março de 2011

QUARTO ACTO - continuação XI


Rodopiava sem o mesmo receio.

O corpo de Fernanda descansa sentado na pequena pedra de granito que faz de degrau à frente do jardim do senhor ministro.

O meu medo, mais uma vez, é de a perder nestas etapas em que a sua mente desliza para o desconhecido.

A água que bebe serve agora para seu consolo, renova-lhe as cores e não parece tão perdida.

Mantém o olhar preso ao chão, as mãos trémulas agarram o copo com dificuldade.

Volta a levá-lo à boca lentamente e bebe sem pressas recebendo a frescura renovada do néctar transparente.

Levanta os olhos em direcção ao céu. Procura os pássaros amigos que ainda agora pelas nuvens passeavam.

Recordo as palavras mágicas que me disse enquanto dormia naqueles dias de silêncio polvilhados com esperança.

Recordo acima de todas as outras, estas palavras:


Do vale à montanha

Da montanha ao monte

Desci na vontade de [encontrar] / engolir a tua sombra

De [encontrar] / engolir o teu mistério

De trocar os secretos caminhos

Por outros que teremos de encontrar

Em horizontes sem rios

Em rios sem pontes

Na Luz, no centro desnudado daquele vale


Caminhamos sem silêncios

Caminhamos desalinhados

Pisamos a imagem desfocada

No espelho deste leito refrescante

Que ao contrário de outros

Vai assim subindo

Do vale à montanha

Da montanha ao monte


Por penhascos pretos o tempo volta atrás

Volta a celebrar tudo aquilo que já fomos

Volta a encantar

Por nos transportar

Até ao cheiro da infância

Até ao púrpura que se cola aos dedos

Até ao doce que nos afaga a língua

Até aos prados onde nos conhecemos


Do vale à montanha

Da montanha ao monte

Desci na vontade de [encontrar] / engolir a tua sombra

Desci na vontade de encontrar

E engolir o teu mistério

Cavalo de sombra


adaptado de Cavaleiro Monge ( Fernando Pessoa )


Os momentos que nos colam a memória ao sonho e ao pesadelo são os mesmos. Enquanto fugíamos do centro do inferno cavalgando o fiel Felício, nada existiu, nada mais existiu nem nada se sonhou. Fernanda recorda os mesmos instintos e olha-me tão intensamente que os meus pensamentos passaram a ser seus. Tento fugir para um outro lado e não consigo. Nada do que eu penso lhe escapa.

A frieza inicial da experiência é substituída pela clareza, pela partilha, pelo sentimento de infinito que me invade neste instante. A viagem é comum e o azul é claro como o céu. O meu adversário passou a ser o nosso, o meu desejo, o meu destino, as minhas ilusões, todos os cansaços e todas as memórias são agora nosso património comum.


( LIVRO DE BERNARDO )


Com este pedaço de história se podem construir milhares de outras histórias, tal como um rio se pode transformar em mar, o mar em Oceano e o Oceano em vida. O que sai do mar tem força para transformar a vida, a mesma que cresce nas ondas, na areia, no princípio da selva, nos seus segredos, nas suas sombras. Da planície subi à montanha, desci à raiz das sequóias, até ao caule, o mesmo que se esconde nas profundezas da gruta mais funda. A vida encanta-se quando salto do cimo dos rochedos, quando fujo aos predadores, quando lhes dou caça. A vida não descansa, oprime mas liberta-me das angústias e dos medos. Dança comigo depois da noite, depois da lua, depois do gosto amargo que por vezes a pinta com cores escuras, que a transforma em pó e em vento e em miragem. A vida arrasta-se continuamente desde o socalco do seu princípio. Renasce por mistério nesta desmedida forma de loucura que nos esmaga, nos embriaga, nos ensina, nos perdoa, nos mima e nos alimenta.

Cedo percebi que nada mais fazia sentido. O poder da adivinhação que me foi estorvando os dias e as noites com loucura estão à beira do fim. Não me apercebi do vulto que pairava por cima de nossas cabeças. Não fui capaz de antecipar esta miragem que tudo destruiu e foi em mim que cresceu a vontade imensa em fazê-la acontecer.

Quis surgir depois da madrugada. Tudo aquilo que anteriormente se foi montando não é mais que um pedaço de sonho, uma amálgama de ideias, de desconexos pensamentos cruzados a preto-e-branco e sem a magia da tua presença. Vou voltar a adormecer. Talvez o sonho me possa trazer de novo a doçura da tua voz.


FIM.


sexta-feira, 18 de março de 2011

QUINTO ACTO - continuação X


Os únicos observadores aqui presentes vão descendo das alturas. O vento sopra com grande intensidade. Alguém o tentou e a intensa ventania ameaça tornar-se num temporal com proporções de ciclone. A água acabou o jejum neste final de Verão e finalmente começa a cair em bátegas fortes e compassadas. Ninguém se pode já queixar da sua falta. A corrente desce dos céus acompanhada por intensa trovoada. Rajadas fortíssimas dificultam-me a tarefa de encerrar as janelas e as portadas. A água tenta forçar a sua entrada nas divisões. Lefébvre vai chegar todo encharcado ao hospital caso ainda vá a caminho. A água da chuva vai ajudar a limpar a cidade pantanosa ao aumentar de caudal pelas ruelas outrora empoeiradas. Finalmente o Tejo vai poder respirar de algum alívio. O rio cemitério gastou todas as lágrimas quando recebeu os corpos dos milhares de mortos que caíram com a cidade. Ele próprio cresceu com a ajuda do mar enlouquecido e ajudou a destruir muito daquilo que ainda se conseguia manter de pé por um qualquer milagre. Presa de um destino cruel, foi-me difícil acreditar na vida como sobrevivente do terremoto. A vida transformou-se definitivamente depois daqueles minutos de angústia que tudo mudaram. Um deserto nasceu, uma solidão incomparável tomou conta de mim. Um frio impossível move-se como um réptil dizendo-me que nunca mais verei quem eu procuro. Quero voltar atrás, quero voltar para os dias antes da tragédia e sonhar com um novo Novembro sem o desastre. Um Mundo diferente onde as águas são calmas, o céu sempre azul, e onde a terra se mantenha sempre firme, fiel à sua missão.
As árvores surgem verdes e as flores perfumadas. O cheiro dos cavalos paira no ar, a luz invade o quarto, a casa toda. A mão no peito do meu filho protege o seu sono. A floresta está toda ardida e os tremores de terra continuam a fazer-se sentir. É difícil recordar as coisas neste lugar onde Deus deixou de falar. A fogueira já está acesa, o novo adormecer transporta mais um pesadelo, um em que tudo arde e apenas ficam as cinzas para contar a história. O ciclone é quase furacão e a morte já é vista como esperança. Lefébvre é lindo, um amigo que não imaginava saiu do túnel mascarado de esperança. O ruído incomoda e a sujidade é tremenda. Vai demorar dias para por tudo limpo e no seu devido lugar. Corro no meio da floresta ardida com o meu filho a acompanhar-me. Fugimos da desgraça e do medo mas somos perseguidos e as perguntas surgem umas atrás das outras sem parar. Vou para sempre tomar conta de ti porque essa é a minha obrigação. Já não há nada para conversar e a única vontade que me acompanha é a vontade que tenho de sobreviver a todo o custo. A chuva não pára de cair, o céu vestiu-se de um cinzento escuro, muito escuro, tão escuro que recordo os dias em que desejei morrer quando era jovem, quando me usavam para tudo o que não interessa recordar. O meu filho tapa os ouvidos para não me ouvir lamentar. As pontes são cada vez mais altas, as recordações pesadas, as despedidas dolorosas e o medo de falhar simplesmente insuportável. O calor é o mais importante, manter este calor aceso para sempre e assim derrotar a escuridão. A trovoada tomou conta da cidade, os trovões são imperadores e a água abastece os lugares escondidos com inclemência. Se eu morrer quem te irá proteger meu filho? Não fales, não grites pois os Libertadores podem escutar qualquer lamuria, qualquer gesto, qualquer cheiro de tristeza ou de doença. Temos de fugir daqui sem que dêem conta da nossa fuga. As lareiras voltaram a acender-se e o cansaço tomou conta de nós. Andamos sem saber ao certo que rumo tomar. São mais as dúvidas que as certezas. A fome tomou conta de nós. Esqueci Lefévbre e os dias são feitos de mentiras. O amor parece ter desaparecido, só o meu amor por ti, meu filho, se mantém eterno. E é essa a certeza única que me faz continuar. Não quero que me vejas chorar agora que os vidros se começaram a partir e a música deixou de se fazer escutar. Uma pequena maravilha pode sempre acontecer e tudo porque não se deve deixar acabar a esperança. Afinal, talvez se deva agradecer aos Libertadores por tudo o que somos e por tudo o que existe. Agradecer pelo meu filho, pelo nosso filho que agora descansa, agradecer as memórias, a relva verde e agradecer o calor deste mundo quando se mantém quente.
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sábado, 12 de março de 2011

QUINTO ACTO - continuação IX




Subi demasiado depressa antes que a ilusão do momento me transportasse novamente para onde não desejava regressar. A força dos Libertadores nasceu com a motivação invisível de sugar a linguagem dos homens. Descobri que Bernardo não possui ainda a força que ele próprio gostaria. Os espaços de regresso, de sonho ou ilusão, acabam misturados nesta paisagem difusa em que nada é aquilo que se representa. A própria Luz desapareceu, como as cores, como a linha longínqua do horizonte, como o discurso. Deixei de ver e de escutar. Resta somente a voz que me vai ditando estas palavras sem que as force. Derramei o medo e a justiça pois não fazem qualquer sentido por aqui. O desejo desapareceu. Não tenho corpo. Os Libertadores trabalharam estas paragens e não deixaram nada ao acaso. A página está em branco, está em preto, suja, encardida, baça, desfocada, dormente e ausente. A minha história acabada terá aqui um recomeço, um que me foi escondido. Voltar a ver a luz do sol, caminhar nas galerias relvadas dos planaltos de Queluz e nas praias de areias finas de Algés. Quando me descreverem novamente o gosto da tua pele, o delicado rendilhado das tuas palavras e do teu olhar, tudo voltará a ser como era antes. O voo destes pássaros, destes mensageiros amigos, acalmou de vez a minha solidão. Os dias não mais se anteciparão, as palavras não serão adivinhadas nem os ventos surgirão do local exacto em que antes se tinham dado a conhecer. Esses exercícios de pura insanidade, estas bolsas irreparáveis de solidão, acabam de ser destruídos nesta improvável reunião. O ministro acalmou-me com a demonstração clara da evidência relatada. Ao pintor daqueles sonhos e pesadelos que tão claros e cristalinos lhe saíram dos pincéis com inigualável mestria, essas histórias pintadas da antecipação da loucura, do trágico acontecimento, acalmaram-me os receios devolvendo-me o espírito e a raiz de quem sou. Quando deixarmos a presença do ministro, terei tantas coisas a esclarecer com Bernardo. Olho para ele e receio que não consiga entender nem a metade dos meus sentimentos.
Terei o cuidado de não abrir as emoções erradas. As minhas estão por agora mais tranquilas. Não serei o monstro que me estava a ser dado conhecer. Outros experimentaram do mesmo pedaço de irrealidade, o mesmo reflexo misterioso e inexplicável que nos impele para a dúvida, para a ilusão. O poder que se bebe desta malga é doce e torna tudo tão claro, transparente. Não consigo encontrar palavras capazes de o descrever.
Os pássaros fogem. A sua companhia promoveu-me a força necessária para continuar. Voltei a dar os passos correctos em direcção ao que ainda falta percorrer.
- Bernardo, tenho sede! Preciso de um pouco de água. Tenho a boca tão seca que mal consigo arranjar forças para falar.
Páro. Sinto as pernas a fraquejar, o corpo a dar de si, os olhos seguem a vontade das pálpebras. O segredo guardado e agora desvendado deixou-me marcas claras, físicas até, que sinto com maior intensidade. O sistema ameaça desligar-se, ameaça transportar-me para aquele lugar que não desejava revisitar. A escuridão voltou, as forças abandonam-me definitivamente. Aguardo pelo resguardo dos braços de Bernardo que correrão em meu auxílio.
*
A estrada devolveu-nos Nápoles. Tanto silêncio e simultaneamente tanta satisfação ao longo do regresso. Com a tarde a chegar ao fim, a baía ficou mágica com a luz do entardecer. Paramos junto a um dos muitos cafés que fica em frente ao porto. Aguardamos envolvidos neste confortável silêncio pelos cappuccinos que pedimos na nossa melhor imitação de italiano. Estamos sob a influência da recente visita a Pompeia. Bernardo resolveu as dúvidas e as antigas inseguranças. Nasceram-lhe asas de esperança. Portas abertas para outras tantas que continuam fechadas. Avançou e os seus olhos reflectem agora essa nova sensação de alegria.
Aquela era a mensagem que gostaria de escutar. Fecha-se no seu silêncio, guarda para si a solidão do momento. As respostas que Pompeia lhe trouxe vieram embrulhadas neste descanso. Que sei eu sobre a alma do meu amado? Que ajuda lhe poderei dar na sua dor? Agora que a tarde desceu e a espuma doce e quente nos pinta os lábios, deixamos que os pensamentos naveguem até ao horizonte que se espraia, até à luz do sol que se despede e onde a vista procura descansar.
Olhos que se cruzam novamente no lugar perfeito, olhos que se despedem, olhos que se entrelaçam e se escondem nas surpresas de cada um. Olhos que se lêem, olhos que se imaginam, olhos que sorriem e lutam por adivinhar o coração. Subimos, depois da delícia e do nascer da noite, para o quarto do Hotel Napolitano. A cama recebeu-nos, o doce escondido de nossos corpos derreteu os lençóis feitos de seda, contou as maravilhas perdidas que fomos redescobrindo às almofadas desalinhadas e o chão acabou por nos abrigar, agradecendo aos deuses o sumo que vai saindo de nossos corpos. A noite entrou pela janela, faz-nos companhia e enreda-se em nós como a maré, transformando-se em gente, transformando-nos em pétalas de flor, em pássaros, em outros que outrora fomos. Fundimos os corpos na companhia do luar que nos ilumina e transforma.
Morremos e renascemos vezes e vezes sem conta nestas horas. A noite persegue-nos, o tapete levanta-nos, a vida transforma-se. Queremos ser todos os seres vivos do Mundo ao mesmo tempo. Agarramos os que já nos aconteceram e todos os outros que ainda seremos. Refugiamo-nos um no outro como um só. A Felicidade existe agora e aqui como nunca antes a sentimos
Voltámos a dar passos correctos em direcção ao que ainda falta percorrer. Acordámos no meio da estrada como num sonho, viajando apaixonadamente pela cor dos nossos beijos. Descemos por um pequeno barco invisível que alguém se entreteve a pintar numa imensidão azul. Como dois condenados, somos incapazes de imaginar um final mais cruel para os nossos actos. O meu príncipe nem sabe como lhe vai saber a mel este meu beijo.


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quarta-feira, 9 de março de 2011

QUINTO ACTO - continuação VIII

São os pássaros que nos recebem de coração aberto quando saímos do refúgio de senhor Ministro. A vontade de falar foi abafada, a voz ficou colada ao céu-da-boca e tudo aquilo que a minha imaginação supôs ficou esmagada perante as imagens da pintura do governante. A vida é um estranho desígnio, uma composição, um tecido fino de cambraia ou organdi que faz uso dos viajantes para com eles tecer eternamente as suas rendas. Gostei de saber que nada me foi antecipado sem que antes a outros a miséria e a desgraça tenha sido igualmente relatada. Uma espécie de loucura começou a tomar conta dos meus dias. Preparei muitas acções para irem ao contrário de tudo o que me ia sendo explicado. Mas até essas tentativas me foram comunicadas, mesmo essas, as que eu ousei tentar alterar, apareciam-me momentos antes em vozes que gritavam em mim as exactas dimensões desses desvios. E assim, mais uma vez, se transformavam em norma. Nada é deixado ao acaso, como uma vil doença, uma maldade acrescida de uma tremenda solidão. E depois tudo começou a ser diferente desde a tua chegada. Os pedidos que fiz para que tudo pudesse voltar a ser como antes começaram a obter algumas respostas. O silêncio que a mim própria impus foi tábua de salvação, foi o meu escudo. Nesse esconderijo senti-me segura, protegida das gélidas situações que fazia acontecer e de todas as outras que me eram transmitidas. Não há nada de bom nesse império vil pois são tremendas as dores causadas pela ruína do seu saber. Fico grata por aqui ter chegado sem qualquer antevisão do que nos foi apresentado. Este retorno da normalidade é uma autêntica bênção, o calor da tua mão é uma autêntica bênção, a vida tal como existe é uma autêntica bênção. Os pesadelos voltarão, como antes, porque é natural que aconteçam. Não serão impostos ou desejados, nem dourados ou prateados, nem coloridos, nem serão dados avisos da sua apresentação. Quando descerem pelas árvores do adormecimento, apertar-te-ei ainda mais na minha direcção para que o teu calor os dissolva até mais tarde, até que numa outra noite mais cinzenta voltem a visitar-me. Dar-lhes-ei de beber com agrado sabendo agora que são, afinal, partes de mim.

- Bernardo, olha quantos pássaros voam lá no alto. Estavam à nossa espera, eu sei que eles estavam à nossa espera. Só me apetece chorar.

Sem saber porquê, as lágrimas começam a correr-me livres pelo rosto abaixo como água num jardim. Estes últimos dias têm sido pródigos em trazer até mim pequenos terramotos. Nada em minha vida é uma certeza, só Bernardo, que depressa tomou conta do meu coração. Nisso não há razão nem tão pouco esclarecimento, só satisfação. As lágrimas continuam a limpar-me o rosto e a toldar-me a visão. Avanço com a mão cada vez mais apertada à de Bernardo sem que a vista consiga focar o chão que vou pisando.



Ei-los a desviar a sua rota, passam atrás de nós, por cima de nós como se soubessem que estamos diferentes. Vieram ter comigo em liberdade para me dar a entender alguma coisa. Sei como interpretar a presença dos pássaros em sonhos, mas eis que aqui eles surgem tão reais, dotados de um comportamento fantasioso. Seremos um do outro assim há tanto tempo? Tantas e tantas portas nos foram escondendo, mantendo-nos afastados como dois estranhos. E que dizer da escolha feita para nos colocarem de novo frente a frente? E digo de novo pois sei que não foi na praça destruída e em ruínas que te vi pela primeira vez. Não sei quantas foram as vezes que passeámos juntos anteriormente, sempre com a mesma dificuldade em encontrar o momento certo para alimentar o coração. Será isso que os pássaros me vêm aqui transmitir? Sinto diferença nestas lágrimas que agora me fogem até ao chão. É seguramente isso que estes pássaros bailarinos nos vêm hoje comunicar.
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terça-feira, 8 de março de 2011

QUINTO ACTO - continuação VII ( livro de Bernardo )



( LIVRO DE BERNARDO )


Vejo umas escadas que subo. Entro num quarto, estranho quarto onde as janelas abertas dão para uma imensa lagoa, talvez mesmo uma enseada onde o mar parece não ter fim. A vista alcança para o outro lado da enseada onde a terra se ergue numa montanha de dois cumes que sobem em direcção ao céu. A imensa montanha domina a paisagem com o silêncio como rei. O mar não se escuta, o vento é mudo e as nuvens parecem ter sido semeadas no azul de forma equilibrada. São muitas as gaivotas que bailam junto ao mar e nada as parece incomodar, nem mesmo as gigantescas cidades flutuantes que descansam em cima da imensidão azul.

De uma das janelas do quarto olho para ao montanha, para o mar, para o desespero perdido, para a ruína, para o que estando longe fica perto, muito mais perto de ti e de nós. Olho e não me consigo alhear da desventura e do pavor. A lembrança de um outro episódio surge no meio desta total ausência de som. Aqui o silêncio ainda é rei e senhor. Aqui vejo passar centenas de corpos ardentes, apavorados, correndo em todas as direcções e em nenhuma. As roupas deixaram de lhes fornecer compostura, alguns atiram-se para o chão rolando desesperados, tentando por cobro ao terrível padecimento. Uma luz imensa com o poder de mil sóis nasceu do centro do planeta tapando por completo o céu estrelado que antes se conseguia contemplar. Toda a vida desapareceu nesse instante neste lugar, o tempo fugiu, as pedras e o ar foram derretidos para sempre. Sem que o pudesse negar, começo a escutar novamente. Não podia ter sido escolhido momento mais inoportuno para que o dom da audição fizesse o seu retorno. É na fronteira da destruição causada pela luz incandescente que brotou das entranhas da terra que me encontro. Os esgares de dor destes milhares de mártires, as vozes, os gritos, são de tal ordem que não nasceram ainda as palavras certas para que os possa descrever. Os corpos desnudados que correm sem labaredas a vesti-los, trazem o rosto coberto de cinzas, os ombros cobertos de cinzas, os braços e as mãos cobertos de cinzas, o peito coberto de cinzas, o sexo coberto de cinzas, as pernas e os pés carregados de cinzas. Atiro-me para a cama que se encontra no centro do quarto, de barriga para baixo e com as mãos a taparem-me a face. Grito desesperada com quantas forças me permitem a garganta e a voz sem contudo me conseguir fazer escutar. Bato violentamente com as pernas e rolo para cada um dos lados da cama. Aperto os braços dobrados e os cotovelos em direcção ao corpo sem nunca tirar as mãos do meu rosto. De olhos cerrados, começo a morder os lençóis e a manta num reflexo incontrolável. No esforço para fazer desaparecer de vez esta lembrança, começo a bater violentamente com a cabeça na cabeceira da cama, uma, duas, três vezes, até que a salvação acaba por me ser cedida no final da quinta tentativa.

Passei mais uma vez pela escuridão morna e aconchegante, pelo silêncio e pela neblina. As dores não passam por aqui e o tempo deixa de fazer qualquer sentido. Os Libertadores são atirados para estes vazios de quando em vez. Vagueio sem rumo sabendo que o medo não tem razão de existir. Relinchos de cavalos, de muitos cavalos, são os únicos sons audíveis nesta imensidão. O cheiro que consigo alcançar, o único cheiro que me é aqui dado a conhecer, é o cheiro do dia daquela corrida, o cheiro do teu corpo onde descansei o rosto cansado antes de ter desfalecido. Voamos agora em direcção ao passado e ao futuro. Fazemos parte desses dois períodos sem que em nenhum deles possamos verdadeiramente dizer onde pertence o tempo presente.

Acordo junto à janela desse quarto, sem sentir o chão, sem sentir as cores e sem nada escutar. Olho a mesma paisagem e vejo as gaivotas a riscar o céu e o mar cinzento junto às enormes cidades flutuantes, junto à montanha do lado de lá do imenso mar. Não sinto o chão porque me trazes ao teu colo. Não sinto as cores porque me tapas os olhos enquanto me beijas os lábios com ternura. Não escuto os sons porque me tapas os ouvidos sempre que me acaricias e brincas com os meus cabelos. Desces comigo das alturas até ao reino do chão onde te ajoelhas. Sentas-me no centro da cama e colocas na minha mão direita o anel. Tudo o que me querias dizer está agora reflectido no sorriso do teu rosto.


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segunda-feira, 7 de março de 2011

QUINTO ACTO - continuação VII




Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que ainda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.
Fernando Pessoa



QUINTO ACTO – continuação VII

Descobri a razão, a causa de tanto desespero, de tanto receio e ansiedade. Os caminhos já percorridos desenterraram a razão e o lamento. Num instante tudo se altera, num instante tudo acontece como se nos tivessem virado a alma do avesso. E contudo a luz dos dias volta a iluminar com a mesma doce aparência de sempre. Ajuda a fazer crescer uma nova raiz feita de esperança. Uma certa ventura paira no ar que se respira concedendo-nos uma alegria que há muito não fazia parte da paisagem. Encontrar a esperança após tamanha destruição e tentar encontrar os lados sensatos da razão. Muitos foram lançados numa empreitada meticulosa e imperialmente regulada pela organização imposta e arquitectada pelo ministro Sebastião. Começam agora as gentes a acordar pela primeira vez desde a catástrofe, sem o peso das terríveis imagens a pintar o início dos dias. Notam-se sorrisos, poucos, mas conseguimos notar um crescimento notável da confiança visível na maneira como os caminhantes avançam e em como a azáfama da grande cidade ecoa pelas suas colinas revigoradas. Tanta mão-de-obra ocupada nas gigantescas tarefas de limpeza e de reedificação e tudo conseguido com uma rapidez e organização inimagináveis. A alegria do ministro tem razão de ser, sente-se uma quase euforia nas suas palavras. Imaginou tudo ao detalhe, ao pormenor permitido pelas prenunciadoras imagens da pintura que nos deu a conhecer. Os acontecimentos foram-lhe antecipados e festejou o seu poder através desta visão que lhe permitiu acautelar ao pormenor todas as tarefas para restabelecer a paz e moldar a seu bel-prazer a imagem da nova capital, uma Lisboa que tinha previsto e que agora faz crescer dando assim forma ao seu sonho de grandeza e majestade.

Fernanda voou até mim e adivinhou as consequências do seu comportamento no meu coração. Sabia onde me vir encontrar e a sua momentânea perplexidade aconteceu fruto da interpretação que dera a muitos dos seus receios.
- Lembra-te dos sonhos, de tudo aquilo que te contei sem perceber, esperando que a minha vida não acabasse nesse código estranho e preocupante. Se eu pudesse controlar essa corrente desgovernada de imagens, histórias e sensações, teria tentado evitar essa maré de palavras. Já reparaste que estas pinturas parecem ter lido grande parte dessas descrições? Mas como são antigas, e como foram colocadas nestas madeiras com mestria por um mago pintor artista do passado. Pelos seus sonhos passaram os nossos sonhos e pelos seus pesadelos passaram os nossos pesadelos, e contaram-lhe estas histórias trágicas do que ainda estaria por acontecer. Afinal o mesmo tipo de padecimento flui, passa pelos tempos e por outros Libertadores. Serão seguramente situações distintas cujo peso não permite outra acção que não seja a de gritar em alta voz, numa qualquer voz que possa de alguma forma deixar registada a força do acontecimento. Assim como migram as palavras, migram os receios, os medos e a esperança.
Pedi neste momento um desejo. Poder voltar ao pequeno abrigo da cela hospitalar onde Fernanda, ainda mergulhada no seu cândido adormecimento, me ia contando em segredo todas as histórias que acabei por registar. Houve um instante irrepetível em que as suas palavras me transportaram para onde habita a verdade e o desejo. Naquele momento tudo aquilo que existe desapareceu, os nossos corpos não estavam mais ali, naquele lugar, e a sua voz transformou-se na mais perfeita de todas as melodias de mestre Bach.