quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

SEGUNDO ACTO


Depois da queda, o espaço deixou de se fazer acompanhar pelos sons e pelos cheiros de morte. Nada se passou de verdadeiramente notável desde que aquelas manchas avermelhadas desapareceram momentos antes do meu corpo se encontrar com as pedras do caminho. Visitaram-me uns ruídos repetidos vezes e vezes sem conta. Um rabiscar permanente e compassado misturado com sons de rasgões violentos demoravam tempos aos quais não consegui dar medida. Os meus olhos nunca se abriram nesta dormência. Outras pequenas memórias foram-me oferecidas nesta escuridão forçada, mas nenhuma tão forte como a daqueles rumores. Um ambiente morno e aconchegado como uma pequena nuvem rodeava a minha alma, sempre com aquela repetida musicalidade a acompanhar a escuridão da minha ausência.

Não sei o que isto é, nem por que caminhos me transportaram até este lugar que desconheço. Só agora a minha cabeça resolveu dar sinal de si, só agora compreendo alguma das coisas pelas quais passei. Surgem novamente as imagens de correrias desesperadas pelo meio de uma cidade inteira a desabar, por cima de cadáveres despedaçados e de gente pintada com as estranhas cores do cinza e do escarlate. Tento abrir os olhos, não consigo. Onde estou? Quem me socorreu, por onde e para onde me carregaram?

Dou ordens a um corpo desobediente. Não se move, não consigo sequer mexer um único dedo de minhas mãos. Não consigo fazer nada. Sinto apenas os odores e os sons que me chegam, sinto de novo as palavras a chegar. Sinto agora a passar por mim um frio incrível que sussurra como uma velha louca, como um pensamento sombrio e escuro que não se consegue ler. Eu vivo das leituras que faço aos meus próprios pensamentos e este frio congelou-lhes as palavras, transformou-as em rochas incompreensíveis e enigmáticas. Tento rodar a cabeça para a minha esquerda na direcção do local de onde me chegam os ritmados ruídos de quem tanto escrevinha. O peso da minha vontade começa a dar frutos e o pescoço ganha tanta coragem que consegue um ligeiro movimento da cabeça, apenas o suficiente para acordar a minha sensação de estar viva. Nada se altera substancialmente. O frio parece cortar a minha capacidade de reacção em duas perfeitas metades. Desconheço de todo o que se passa comigo. Mora em mim esta espécie de penumbra. O peso das pálpebras continua a vencer a vontade que tenho em as abrir e não consigo evitar um medo, um nervoso miudinho que se começa a instalar na razão e ousa semear pequenas raízes de incerteza. E se for para todo o sempre!? E se esta escuridão veio para ficar?

Torna-se cada vez mais real a imagem daquele corcel a avançar como uma flecha para longe da desgraça. Os meus pés bebiam o quente do seu corpo. Eu ia-o pintando com a tinta que me saía do corpo, dos pés e das pernas feridas, das minhas mãos confusas. A cabeça descansava nas costas temperadas com o calor do cavaleiro, a mesma cabeça que se deixou deslizar com o resto do corpo montada abaixo, a mesma cabeça que viu num instante minúsculo do tamanho de uma vida a pata traseira do animal a caminhar na sua direcção. O tempo que passou daí até agora é um total mistério. Não vejo, não consigo dar movimento a nada daquilo que sou, apenas promovi esta pequena e muito leve inclinação à cabeça desde que as palavras me acordaram para esta nova e estranha condição.

Correria de bom grado novamente no meio da pior hecatombe, como me instruíram as vontades naquela Lisboa arruinada, para sentir novamente as dores agudas que me estalaram as pernas e os braços, que me rasgaram a pele e a carne ao passar veloz por cima das madeiras partidas e das pedras aguçadas, nas muitas despedaçadas vidas que atapetavam o chão da cidade. Assim me foi ordenado por saberem que iria cair nesta ingrata dormência. Consigo mexer a língua, consigo colocar a ponta da língua fora dos lábios para sentir o sabor deste ar frio que me corta ao meio. Os olhos movem-se, agitam-se muito debaixo das pálpebras pesadas e nada mais.

Desconhecia de todo esta agrura. Os cegos arrastam-se a mendigar junto das igrejas e da Sé onde se juntam, por vezes, às dezenas. Antes de se sentarem, batem com um pau e tacteiam os obstáculos e os espaços até descobrirem aquilo que procuram. Nunca me passou pela ideia ou pelos desgraçados pesadelos semelhante privação. E este constante escrevinhar que não pára, este raspar a pena na folha de forma firme e compassada. Nas mãos deste escritor feiticeiro moram, seguramente, mais certezas que compassos feitos de dúvidas. O que quer que ali vá desenhando, o que quer que ali vá contando, é feito com tamanha firmeza, com tamanha segurança que apenas por duas vezes neste último período ouvi os sons que comunicavam o estrangular desta actuação.

Os odores que perfumam este lugar são ácidos, intensos e penetrantes. Misturam-se cheiros a cinza apagada de uma lareira medrosa, odores de humidade e uma pitada de cheiro a carnes secas que vem de cima, juntam-se com o meu odor cansado e doente, misturam-se ao cheiro a urina e a fezes que paira por cima de todos os outros e um delirante cheiro a aguardente que agora acabou de entrar e que se aproxima rapidamente de mim.

Para ouvir alto, muito alto...

Para deixar os silêncios trabalhar quando estes pedem

Para sentir a alma derreter ao latejar dos compassos

Para fechar os olhos e deixar cada gota, cada nota, cada suspiro, dar a novidade

Para agarrar com força

Para deixar fugir a vontade até amanhã

Para deixar fugir a vontade até esta ficar surda

Para não pensar

Para derreter todos os sumos lentamente

Para provar o sabor dos ramos e das cascas, das sementes

Para não mais voltar

Para não mais partir”

- Devia ter pedido por favor! Sabe que detesto ser incomodado por estas suas entradas impetuosas. Tenho de estar constantemente a chamar-lhe a atenção, caramba? Deixe os líquidos e as compressas juntamente com a água fervida nessa mesa junto à doente e saia imediatamente da minha frente. Da próxima vez não o chamarei mais à razão e falarei sem articular palavra alguma. Desapareça de uma vez daqui para fora!

O homem, meio embriagado de sono e outro tanto de álcool, deverá estar a fazer de conta que não ouviu e toma a mais sensata das atitudes, respondendo com vénias e trejeitos de cortesia, escrevendo no ar sentidas desculpas, marchando para trás a retirada nestes propósitos. Deve estar a ser de tal forma o teatro que o senhor médico já quase se arrependeu da brusquidão com que recebeu o serviçal.

- Sim, sim, saia lá depressa e evite de uma vez por todas estas suas atitudes desorganizadas. Sabe bem o quanto me aborrecem. Lefebvre deverá estar a necessitar dos seus serviços. Vá ter com ele e diga-lhe que dentro de poucos instantes necessitarei de lhe falar. Estou a terminar um assunto importante e irei assim que possa.

A voz mudou, o tom é agora mais tranquilo. Foi a surpresa de ter sido interrompido no seu constante e ritmado percurso de escriba que o alterou com o susto a inspiração. O médico escritor pousou a pena e olha para mim neste momento. O seu olhar atravessa-me as pálpebras e vem ter comigo sabendo que estou acordada com os olhos fechados. A ponta da língua de fora dos lábios e a pequeníssima diferença na colocação da cabeça, que se virou para o local onde a pena se entreteve a rabiscar o papel, encarregam-se de o comunicar. Mais forte do que esses sinais é a sua presença. Sente-se na sala, enche-a por completo, como o seu olhar assim que o vi na praça igual à imagem que me aparecia nos sonhos, os mesmos que me comunicavam às parcelas toda a tragédia acontecida.

- Vou ficar aqui o resto da tarde e toda a noite, e toda a vida. O teu rosto apareceu no meu sonho e não mais posso esquecer o momento em que te vi no centro da praça destruída, igual à estátua que na véspera da concretização da loucura me comunicou envergonhada tudo o que iria acontecer. Sei que me ouves, sei que me adivinhas a vontade em te voltar a dar o que perdeste naquele estúpido acidente com o Felício. Sabes que não irei parar até conseguir trazer-te de volta. Necessito de obter as respostas que acredito estarem guardadas em ti. A intensidade do que li no teu olhar não me deixou dúvida alguma. Esse segredo, esse dom que tão bem guardaste é raro demais para que permaneça assim nesta ténue indeterminação.

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