domingo, 6 de setembro de 2009

PRIMEIRO ACTO - continuação V


O medo avança pelas ruas transformadas num mar de detritos, como uma montanha aquática de corpos afogados e despedaçados, de almas destroçadas. É um caminho perdido que transporta a morte pelo meio da cidade arruinando a pouca réstia de esperança que alimenta muitos dos sobreviventes, que me alimenta a mim. Vai-se a alma destruindo com a mesma rapidez com que cai a cidade.

Qual será o ponto de paragem desta visão, deste pesadelo suspeito que apenas me foi dado a conhecer numa ínfima parte e que agora se estende como a maior e mais trágica de todas as óperas já compostas? Na minha cabeça surge intensa a maior de todas as dúvidas. Só posso estar a sonhar! Sinto as vibrações da realidade mas devem-se seguramente a uma qualquer parcela da memória que não se desligou durante o pesadelo e que se mantém activa assustando-me com este sonho tão real. Não existem sinais de tréguas da parte dos elementos. Será impossível fazer apagar da minha vida os resultados tremendos desta experiência. Desejo acreditar tratar-se ainda de um sonho, de um horrível e monstruoso pesadelo carregado com o enigmático peso da realidade. A verdadeira realidade é a que ficará eternamente marcada na memória deste povo. Transforma-se a paisagem com a lama, as poeiras arrastadas pelas águas sujas que teimam em tentar alcançar as ruelas que permanecem secas e empoeiradas, negras com a fuligem e os intensos fumos negros que carregam o ar que se vai respirando. A maior das minhas estranhezas é de não conseguir perceber a verdadeira dimensão do tempo. Tudo acontece de forma tão rapidamente desadequada, de maneira tão apressada que furtou parte de mim nestes abalos. Foi como se me tivesse deixado afogar como esta cidade que já não existe. Contudo, permaneci uma pequena eternidade no centro desta praça a contemplar e a sofrer, como todos os que aqui estão, estas lembranças em forma de castigo. Envolvem-se as partículas de tempo à nossa volta alterando-nos a razão, a visão e os restastes sentidos. Os músculos perdem vigor e as entranhas do corpo rugem como um animal selvagem ameaçado. Ficamos perdidos no meio de tanta incerteza e destruição. Perdi de vista todas as referências que a larga praça me dava pois sofreu mudanças radicais. As pessoas espalham-se por todos os espaços mostrando sinais de grande cansaço e esgotamento físico e mental. Perderam-se seguramente milhares de vidas nesta improvável manhã. Porque me foram dados os sinais deste dia? As imagens estavam quase todas incompletas e não transmitiram a real dimensão da catástrofe. O impacto das minhas palavras foi quase nulo e deu a Lefebvre vontade para avançar sozinho para o interior do hospital em chamas. Não mais o vi desde esse momento. Os loucos continuam aqui sentados, desnudados mas respeitadores e bastante serenos perante a dimensão do calamitoso cenário. A esmagadora maioria dos edifícios está agora em chamas e escutam-se barulhos infernais que surgem de todos os recantos da cidade destruída, juntamente com a barreira de água que tomou conta da zona ribeirinha que destrói e devasta tudo à sua passagem até à altura dos primeiros andares das habitações. São estes os principais rastos que o rei mensageiro da morte deixou ao resolver modificar as tranquilas comemorações deste Santo dia.

Observar e escutar, dói, como dói sentir as peles a arder ou o corpo a ceder perante a força dos prédios a desabar, a rasgar os membros e a enterrar vivos tantos que vão gritando até à exaustão quando percebem que se encontram presos sem possibilidade de salvação. São muitos os que nessa condição morrem afogados pelas águas ferozes que a onda traiçoeira lhes serviu. Melhor teria sido a morte os ter levado quando a primeira queda das fachadas os tapou ainda com vida. E o azul sereno com que a manhã deste sábado de Todos os Santos acordou continua a fazer-se adivinhar por detrás das carregadas manchas negras paridas pelas dezenas de incêndios que crescem um pouco por toda a parte. Como pode Deus manter lá bem no alto a cor esquecida da pureza Celestial se nesta cidade devota o caos, a morte e a miséria continuam a ser semeados com tamanha eficiência?

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